Entrando na Universidade.

Palazzo Nuovo – prédio sede das Humanas (Unito)

Muitos me perguntam o que eu faço por aqui, como fiz para entrar na universidade e como funciona tudo; espero com este post elucidar um pouco mais a historia…

Como funciona o sistema universitário italiano? Hoje em dia podemos dizer que o sistema italiano esta uniformizado com o europeu como previa um projeto da União Europeia de uniformizar os sistemas das universidades dos países pertencentes à UE. Atualmente, a maioria dos cursos de graduação tem a duração de 3 anos ou o equivalente de 180 créditos, as especializações duram 2 anos ou 120 créditos, alguns mestrados duram 2 anos também e os chamados “master” podem ser mais curtos e durar 1 ano. Na teoria, os cursos de 3 anos – chamados aqui na Itália de “laurea triennale” – são equivalentes aos cursos brasileiros de 4 anos porque aqui o curso é em tempo integral (não funciona em somente um período do dia) e no fim das contas a quantidade de créditos é a mesma.

Os jovens italianos se formam do ensino médio com aproximadamente 19 anos porque existe um ano a mais de escola em relação ao Brasil; ao final do ensino médio, todo estudante italiano deve passar pelo “exame de maturidade”, que são provas que abrangem todas as disciplinas e conteúdos abordados durante o ensino médio, mais um trabalho de 30 paginas envolvendo alguma disciplina de interesse do aluno e por fim, um exame oral com perguntas variadas. Este exame terá uma nota final que pode chegar a 110/110 mais “louvor”, e será essa nota que o aluno irá usar ao tentar se matricular nas universidades de seu interesse. Aqui não existe vestibular, então a nota que você conseguir no seu exame de maturidade é a única ferramenta que você poderá usar para ser aceito em uma universidade, então em um certo aspecto, é mais difícil que os nossos vestibulares. Uma grande diferença é que aqui existem cursos a “numero fechado” e cursos a “numero aberto”: numero fechado significa que o curso existe um numero exato de vagas, como no Brasil, e portanto os cursos considerados de maior prestigio ou responsabilidade são a numero fechado, como medicina; numero aberto significa que o curso não tem limites de vagas, e portanto podem se matricular tantos alunos quanto a universidade pode aguentar (e atualmente estamos vendo que estao aceitando até mesmo aqueles que a estrutura não consegue mais aguentar) – a grande maioria dos cursos é a numero aberto (letras, filosofia, historia, geografia, biologia, engenharias, e até mesmo direito). Basicamente, se você conseguiu passar no exame de maturidade e quer fazer um curso a numero aberto, praticamente nada pode te impedir.

Palazzo Nuovo.

Ao entrar na universidade a coisa fica mais difícil, porque aqui o sistema depende muito mais da responsabilidade do aluno do que da cobrança dos professores. Cada curso de cada faculdade possui diferentes “curricula”, diferentes percursos que o aluno pode tomar mais especificamente dentro do seu próprio curso. Como exemplo vamos usar o meu curso: eu faço Letras. Aqui o curso de Letras é articulado em 5 curricula diferentes, o Antigo, o Medieval, o Moderno, o Oriental e o Linguístico. Ao entrar na faculdade o aluno irá escolher o curso e o percurso, e de acordo com o percurso escolhido, terá diferentes escolhas de disciplinas disponíveis para montar o seu “plano de carreira acadêmica”. Cada curso possui aproximadamente 6 matérias base, iguais para todos (cerca 60 créditos dos 180) e o resto o aluno vai escolher de acordo com o seu percurso e os seus interesses. As disciplinas aqui funcionam em “módulos” e você pode seguir as aulas que quiser, se quiser, porque não existe a obrigação de frequência. A sua única obrigação com a faculdade é fazer os exames previstos para o ano (geralmente somando 60 créditos) – você pode fazer 3 anos de faculdade indo somente nos dias de exame, se assim preferir ou se você não puder assistir às aulas, o seu único dever é aquele de chegar preparado para o exame e ser aprovado.

E como são os exames? Outra grande diferença! A grande maioria dos exames aqui é em forma oral: ou seja, você aparece no dia marcado e espera na fila de inscritos para o exame até chegar a sua vez; então, você será interrogado pelo professor ou pelos seus assistentes, durante o tempo que o professor achar necessário para determinar a sua nota. A nota pode variar de 0 a 30, sendo 18 a nota minima para aprovação. Se você foi aprovado, sua nota sera registrada em documentos e você esta pronto para ir para casa! Algumas matérias ainda usam a prova escrita, por motivos claros: provas de tradução de textos e exercícios de gramatica, por exemplo. Um pouco antes de terminar os 3 anos, ou alcançar os 180 créditos, chega a hora de escolher um professor orientador para o TCC, e ai não tem muitas diferenças com o que acontece no Brasil.

Para quem pegou o bonde andando e ainda não sabe, eu faço um curso universitário a nível de graduação aqui na Itália e atualmente estou no ultimo ano. Um detalhe importante é sobre a natureza das universidades e as taxas: Eu estudo na Università degli Studi di TorinoUniTo – que é publica, mas ainda assim temos que pagar taxas de matricula e etc. Todo ano a taxa universitária é dividida em duas parcelas; o total do valor anual hoje em dia está menor que 12 meses de mensalidades em uma universidade particular brasileira, praticamente 1/3 ou ¼, dependendo do curso. Existem também as universidades privadas, que são mais difíceis de entrar (porque tem mais prestigio) e custam o triplo das publicas.

→ Dito tudo isto, ainda fica a pergunta: como consegui me matricular (ainda mais se você considerar que eu não fiz ensino médio aqui e não tenho uma nota de maturidade)? Você pode estudar em uma universidade europeia de dois jeitos: ou sendo europeu, ou fazendo um intercambio (que duram no máximo 1 ano). O meu caso é o primeiro. Tendo a dupla cidadania (brasileira e italiana) – como eu comentei no post Capitulo 1 – eu teoricamente podia me matricular em universidades europeias, mas ainda me faltavam alguns requisitos. Quando começamos a ver os detalhes para fazer a minha matricula, descobrimos que existia a diferença de anos estudados na escola entre Brasil e Itália, e portanto a universidade exigiu que eu tivesse ao menos um ano de universidade no Brasil para completar o que faltava e me colocar “no nível” dos meus colegas, e foi isto que eu fiz. Em termos de papelada, o que me pediram foram os históricos do ensino médio e do ano de faculdade que eu fiz, traduzidos e autenticados pelo Consulado Italiano para serem analisados, ou seja, era importante que eu tivesse notas boas e nenhuma reprovação. Alem disso foram coisas mais obvias como as cópias dos meus documentos, fotos, e etc.

Este foi o meu caso, mas se você esta interessado em ir estudar fora, o importante é procurar cedo por informações, não importa a sua situação. Seja você também um cidadão europeu ou um cidadão brasileiro procurando por um intercambio, eu sugiro à você: escolher o país e a universidade que te interessa; encontrar o site e procurar por informações a respeito de matriculas e cursos; ir atras de documentação cedo, assim você tem tempo caso aconteçam emergências; e por ultimo, mas não menos importante: começar a conhecer a língua do país aonde você pretende estudar – muitos cursos em faculdades europeias já possuem grades curriculares inteiramente em inglês (principalmente para os cursos de exatas), mas se você não for fluente em pelo menos uma língua estrangeira, o seu percurso vai ser bem mais difícil, algumas universidades pedem até mesmo um certificado de fluência da língua (como o IELTS para o inglês). Um bom começo para tudo é se você já for estudante de uma universidade no Brasil: procure os professores responsáveis pelos intercâmbios na sua faculdade e peça informações a respeito. Muitas universidades europeias – principalmente no norte – oferecem até mesmo bolsas de estudo e de moradia para estudantes realmente interessados, então mesmo que você tenha o sonho mas não tenha o dinheiro necessário, não é impossível, existem muitas alternativas!

Sala de aula dentro do Palazzo Nuovo.

Ainda tem duvidas? Não entendeu alguma coisa direito? Mande sua pergunta através dos comentários, ou qualquer outro meio que você achar mais confortável, e pode deixar que eu respondo tudo que estiver ao meu alcance. ;) 

15 respostas em “Entrando na Universidade.

  1. Boa noite. Gostaria de saber se a unica forma de cursar a universidade seria fazendo 1 ano de faculdade inicial no Brasil? Estou no E.M e pretendo formar pelo ENEM. Logo depois gostaria de ir pra Italia e começar a faculdade. Não seria possível?
    Obs: Dupla cidadânia
    Obrigada.

  2. Pingback: Saindo da Universidade na Italia… | Life's little souvenirs

  3. Olá Sissa!! Outro post muito interessante!! Eu sou formada em Letras e uma das minhas paixões é estudar idiomas, infelizmente não sou fluente em italiano, mas sempre tive muita vontade de estudar por alguns meses na Itália!! Só de você ter mencionado as matérias que você estuda eu já fiquei interessadíssima!! Eu tive muita sorte de estudar latim aqui na universidade em Brasília, mas estudar latim aí no berço deve ser outro nível!! Parabéns!!
    Flávia.

  4. Pingback: Sumiços, Faculdade & Vintage Travel Posters: #3 Africa e Asia. | Life's little souvenirs

  5. Ah, e em relação às ouras opções de Letras, incluem Literatura?
    Eu sempre imaginei que seria mais difícil, (principalmente acompanhando teus tuítes hahah)
    Admiro força de vontade das pessoas, ultimamente ando bem desanimada com tudo, não sei se eu teria capacidade pra me esforçar tanto… mas gostaria de fazer uma pós-graduação fora do Brasil.. Itália era uma opção, quem sabe…
    Sabes como funcionam especialização, ou mestrado ou qualquer coisa do tipo por aí? (tanto pra quem é europeu/italiano, quanto pra estrangeiro)

    • Nao, as opçoes sao somente aquelas que eu citei, mas o detalhe esta que em cada um desses percursos tem uma dose maior ou menor de literatura: em Antiga, voce estuda literaturas antigas (latina e grega), em Medieval, literaturas medievais, em Moderna, literaturas modernas comparadas, e em Oriental, literaturas orientais (hebraico, arabe, chines, etc); o percurso linguistico é o com menos literatura: sò tive uma materia de lit italiana e uma de lit estrangeira. Entende? A estrutura de curso aqui é muito diferente…

      Para os outros niveis de graduaçao funciona do mesmo jeito: ou sendo cidadao europeu, ou conseguindo intercambio ou bolsa de estudos… Poucas universidades tem ‘cotas’ para estrangeiros para fazer um curso completo…

  6. Soube que p quem faz Intercambio o percurso é bem mais suave, isto é, os professores nao sao tao exigentes nos exames, como sao para com os alunos matriculados normalmente…procede?!?!

    • Existe uma diferença sim. Na verdade, a cobrança com os alunos intercambistas depende muito tambem do que a Universidade que enviou eles espera que eles alcancem. Tem universidades que sò pedem um certificado do curso da lingua aprendida, tem outras que pedem certificados de provas feitas! A universidade que recebe o aluno vai cobrar em base ao que a universidade que enviou espera.

  7. Nossa, mto bom esse sistema do “teste de maturidade”, isso força o estudante a se preparar desde cedo, e ser responsável desde o início, e não cria margem para a máfia dos cursinhos pré-vestibulares que temos aqui no Brasil (assim como a máfia das fraudes de vestibular).

    Outra coisa inteligente: o lance de não cobrar frequência. Afinal, se você se saiu bem na prova, o que importa a sua frequência? Você já provou que sabe!

    Sempre tive vontade de estudar fora, talvez não um curso superior, mas pelo menos uma especialização. Estou estudando o idioma inglês para tentar um curso no exterior mais adiante ^^

    Bom, no mais, parabéns pelo post! Continue assim!

    P.S.: dica para post: como está o mercado de trabalho aí na Europa para alguns cursos que você citou ;)

    • Pois é, inclusive as provas tem um programa para os que ‘frequentaram’ e os que nao ‘frequentaram’, pra ter uma vantagem pra quem foi a aula e frequentou. Sugestao anotada! Terei que fazer pesquisa, hahahha….

    • Pois entao! Eu tambem era muito timida (e pra muitas coisas ainda sou), mas posso dizer que esse tipo de coisa é tratamento de choque! Hahahaha… eu ainda fico nervosa toda prova, mas vai acostumando com o tempo e tu vai descobrindo o jeito melhor, uma estratégia, etc….

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